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"A alma é sinfônica", Hildegard von Bingen

Hildegard de Bingen (1098-1179) foi uma monja alemã beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, filósofa, musicista, linguista, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga e escritora. É uma santa e doutora da Igreja Católica. Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes da idade média, e suas conquistas têm poucos paralelos mesmo entre os homens mais cultos e eruditos de sua época. Uma mulher a frente do seu tempo!

Já tinha ouvido falar dela em um curso de música que fiz, mas agora outra vez cheguei nela durante minhas leituras da vida dos santos (livro "Santos Fortes - Raízes do Sagrado no Brasil" de Leandro Karnal e Luiz Estevam de O. Fernandes, Editora Rocco).


Me chamou muito a atenção a obra de Santa Hildegard. É impressionante pela diversidade de temas que contemplou. Escreveu nove livros sobre assuntos tão diversos quanto cosmologia, botânica, linguística, ciências médicas e teologia. Uma grande intelectual. Mais que isso, era uma polímata.

Polímata

Def.: "aquele que aprendeu muito". É uma pessoa cujo conhecimento não está restrito a uma única área. Em termos menos formais, um polímata pode referir-se simplesmente a alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos.

Relatava ter visões do espírito santo que lhe traziam conhecimentos, mensagens e ensinamentos.

Possuía uma concepção mística e integrada do universo. Para ela, a solução para os problemas reais devia vir de uma união harmoniosa entre corpo e espírito, entre natureza, vontade humana e graça divina. Quis acima de tudo desvelar para as pessoas os mistérios da religião, do homem, do cosmos  e da natureza.

Era uma terapeuta naturalista, tendo feito muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças.

Hildegard cuidava dos doentes que a procuravam por meio da música. Usando a musicoterapia, tanto Hildegard quanto as irmãs do monastério tocavam e cantavam para os doentes para que eles pudessem se recuperar tanto fisicamente, quanto espiritualmente. Ela dizia que a música levava à Deus e curava as almas doentes e cansadas.

A primeira compositora da qual temos uma biografia, ela compôs 77 canções sagradas e um drama litúrgico musicado. Como uma beneditina, ela e suas irmãs cantavam o Divino Ofício oito vezes por dia, e acreditavam que cantar é a maior forma de rezar. Para Hildergard, o poder místico da música religava a humanidade à extase e à beleza do paraíso, conectando quem canta diretamente com o divino e juntando o céu e a terra em uma grande harmonia celestial.  Dizia: “A alma é sinfônica”.

Escutem e se sensibilizem com uma de suas peças musicais (Canticles Of Ecstasy):


Até uma linguagem inventou, chamada de Lingua Ignota.

Alfabeto criado por Hildegard

Também fez diversas iluminuras e mandalas:






Deus está na natureza

Para ela, o divino se manifestava em cada folha, raio de sol, flor ou pedra. A criação revelava a face do criador invisível. Deus está presente em tudo. Hildegard celebrava o sagrado na natureza, algo muito relevante para nós hoje em dia, em tempos de mudanças climáticas e de aumento da destruição dos ambientes naturais. 


O divino feminino

As visões de Hildegard revelaram o divino feminino, em uma época na qual a igreja era praticamente dominada por homens. Em suas visões, ela muitas vezes via Deus em uma forma feminina. Comparava Deus a um ovo cósmico gestando a vida como um útero.


Reconciliação entre a fé e a ciência

Seus escritos científicos tratam de cada aspecto da vida humana,  incluindo a sexualidade, a qual ela discutia francamente e sem julgamento moral. Para ela, não existia contradição entre ciência e religião. Apesar dela acreditar na importância do celibato, acredita-se que foi a primeira pessoa a escrever sobre o orgasmo feminino.


Cura holística

Hildegard acreditava que os homens existiam como um microcosmo dentro do macrocosmo do universo e, como tal, espelhando o esplendor da criação. Quando uma pessoa cai em desarmonia com esta relação (perde a harmonia entre o humano e a natureza), aparecem as doenças. Estas podem ser tratadas por meio de repouso, curas com ervas, banhos de vapor, uma dieta apropriada e buscando a paz entre a pessoa e o divino. Acreditava que a cerveja agradava à Deus.

A santa deixou vários escritos sobre medicina natural e curas. Ela desenvolveu remédios de ervas para tratar cânceres em estágios iniciais. Na Alemanha, ainda hoje, muitos médicos naturalistas seguem sua filosofia e prescrevem seus remédios.

Controvérsia e Confrontação

Hildegard foi uma confrontadora. A igreja de sua época estava corrompida e com muitos escândalos sexuais, e ela denunciou tudo isso e propôs reformas. Fez viagens para pregar, alertando sobre esses problemas e tentando mudar as mentes erradas dentro da igreja, enfrentando seus superiores.

O filme "Vision" (dirigido por Margarethe von Trotta, de 2009) conta a história de Santa Hildegard. Vale a pena assistí-lo!


P.S.

Gostei muito dessa frase sobre o que é ser santo, que li no livro que li e fiz referência acima aqui nesta postagem:

“Santo não é, portanto, quem é perfeito, e sim aquele que, em meio às contradições, erros e defeitos, faz de sua capacidade de amar um serviço libertador a quem sofre ou vive excluído e oprimido” (Frei Betto, 2014)


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